P. Luciano GUERRA
terça-feira 27 de Maio de 2008
No dia 13 de Maio de 1917 Nossa Senhora sabia que a maior preocupação das crianças de Aljustrel, dos seus pais, dos seus vizinhos, e de muita gente mais, por toda a Europa e pelo mundo além, era a falta de paz.
O mundo só é possível em paz. É na paz que as coisas mais diversas e mais contrárias se concertam entre si para fazerem a organização da vida. O fogo pode coexistir com todos os materiais inflamáveis, mesmo paredes meias, sem que isso signifique o deflagrar de um incêndio. O importante é que cada coisa esteja no seu lugar e actue quando pode actuar, para se combinar com o resto.
O problema da paz é um problema permanente porque o mundo está sempre a mexer, e quem mexe arrisca-se a mexer nos outros, a tirá-los do seu lugar, e a pô-los em pé de guerra. Às vezes, muitas vezes, até à morte. E quando a guerra é provocada para tirar do seu lugar, e da vida, quem os ocupa com toda a legitimidade, o ser humano abusa do seu poder, transgride o quinto mandamento de Deus, e ofende o Criador da paz.
Em Maio de 1917 Portugal tinha acabado de entrar na primeira Grande Guerra. Nossa Senhora fez dessa angústia o ponto focal da sua intervenção na Cova da Iria. E por um desígnio muito mais vasto ainda, quis manifestar-se a três crianças como a Mensageira da paz para o mundo inteiro.
Foi a paz que fez a irradiação de Fátima. É ainda a paz que há-de prolongar a actualidade da sua mensagem, neste mundo do terceiro milénio.
A primeira coisa que se sente nas aparições de Fátima é a solicitude de Maria para com os seus filhos angustiados pela tragédia da guerra. E a sua intervenção vai acontecer através de várias vias, que se baseiam todas em despertar a solidariedade dos cristãos, enquanto crentes, para tentarem obter de Deus a graça da paz.
O que lhes pede Ela como colaboração primeira? A oração do terço, que agora chamamos rosário, uma vez que começou recentemente a compor-se de mais um parte, os mistérios luminosos. Segundo a quarta Memória da Irmã Lúcia, Nossa Senhora pronunciou pelo menos oito vezes a palavra terço. Cinco vezes recomendou que o rezassem todos os dias. Quatro vezes indicou a paz como razão da recomendação.
Quase parece impossível que um adulto, ou uma criança, se possa convencer de que uma qualquer oração, rezada perto ou a milhares de quilómetros de um foco de guerra, possa ajudar as partes em litígio a encetar negociações, ou de qualquer modo desistir da guerra. Mas esse é o segredo da fé. Tudo o que fazemos com os olhos em Deus, é visto por Deus, é aceite por Deus, se o fazemos segundo a vontade de Deus. Uma simples oração, mesmo com as distracções que são normais no ser humano, sobe ao Coração de Deus e obtém o seu efeito, mesmo a dezenas de milhares de quilómetros.
Os Pastorinhos não devem ter-se lembrado de outras guerras, de outros conflitos, mesmo mortais, e mesmo quem sabe ali junto da sua própria aldeia. No seu coração infantil, iluminado pela fé, a sua oração podia valer a muita gente e muito longe. Insistindo no seu pedido e na sua promessa, Nossa Senhora despertou neles a consciência de que Deus é Pai de toda a Humanidade, e com todos se interessa, e de todos atende a oração. Mesmo a oração mais simples, como é o rosário. E mesmo para as situações mais complexas, como as da guerra. Rezar o terço pela paz é assim um meio que podemos crer eficaz, desde que o façamos todos os dias. Não saberemos nunca quem é que no Médio ou no Extremo Oriente, aqui na Europa, em nossa própria casa, ou até no nosso coração, será tocado pela graça de Deus para a paz, por força do nosso rosário de todos os dias. Mas Nossa Senhora, ao pedir e prometer, garantiu que valeria a pena.
Se acreditamos na mensagem de Fátima como mensagem da Mãe de Jesus, se temos a generosidade de todos os dias lhe oferecermos o terço, acreditaremos também que mais tarde ou mais cedo, aqui ou ali, nos outros ou em nós, alguém vai sentir um impulso eficaz para a paz. E é que muita gente, os mais fiéis ao longo de dezenas de anos, tem testemunhado que «sente» a acção do seu terço para a paz.
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