O Mundo do Rosário e a Ordem dos Pregadores
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Maria e o Rosário

sábado 21 de Maio de 2011

Um texto de Fr. Domingos N. Martins, o.p.

Outubro, mês do Rosário! Sobre esta devoção, por mais que se fale ou escreva, nunca se diz demasiado, nem bastante, nem sequer o suficiente. Hoje fixar-nos-emos apenas, e muito brevemente, no nome, origem, predilecção de Maria por esta devoção e sua eficácia.


1. Significado da palavra “Rosário

O vocábulo ROSÁRIO deriva de roseira ou de ramalhete de rosas. E, porque a rosa é a mais bela e perfumada das flores, adequado é que se chame Rosário à devoção que, entrelaçando espiritualmente os mais belos mistérios das vidas de Jesus e de Maria com as mais belas orações, suscita os mais nobres pensamentos e afectos do cristão e o leva a ofertá-los a Maria e, por seu intermédio, a Deus. A esta devoção chama-se, por conseguinte, e justamente, ROSÁRIO, porque é um ramalhete e oferta das mais belas flores espirituais a Nossa Senhora e, por ela, a Jesus.

Pode também dizer-se que os mistérios que nesta devoção se meditam são como roseiras, e as orações que nela se rezam como rosas que nascem e se alimentam da sua seiva, pois, de facto, na devoção do Rosário, a oração vocal deve ser expressão e como que floração do significado dos mistérios.


2. Origem do Rosário

Quando e como nasceu a devoção do Rosário?, perguntam-nos, por vezes. A instituição do Rosário – não, evidentemente, como o rezamos hoje, mas na sua génese, nos seus elementos básicos – é atribuída, por uma sólida tradição cada vez mais bem comprovada pela crítica histórica, ao grande São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem de Pregadores, ou Ordem Dominicana, no início do século XIII.

A mesma tradição, unanimemente aceite pelos Sumos Pontífices, refere que terá sido a Santíssima Virgem a inspiradora desta devoção a S. Domingos, seu insigne devoto. Seja-nos permitido esclarecer que Domingos de Gusmão foi um dos maiores santos do cristianismo, eminente em sabedoria, em virtude e em zelo pelas almas. A Igreja, na sua liturgia, apelida-o de «Clarim do Evangelho», «Coluna da fé», «Luzeiro da Igreja», «Tocha de Cristo», «Segundo Precursor» e «grande salvador de almas».

Que melhores provas da intervenção de Nossa Senhora na origem do Rosário do que as suas frequentes e inegáveis aparições extraordinárias para o recomendar? Se ela, para conservar e aumentar a devoção ao Rosário, apareceu várias vezes e operou tantos prodígios, não será razoável crer que interveio, directa e miraculosamente, na sua fundação que constitui um remédio maravilhoso para as necessidades da Igreja? Com efeito, sabemos que, por um lado, no começo do século XIII, a heresia albigense, espantosamente difundida, sobretudo no Sul da França, destruía radicalmente a fé, negando os mistérios fundamentais da Santíssima Trindade e da Redenção e, por conseguinte, a Maternidade divina de Maria. Por outro lado, o povo fiel mal conhecia os dogmas fundamentais da Igreja, e o desconhecimento do latim incapacitava-o para utilizar a oração litúrgica. Consequência natural da deficiência da fé e da falta de oração era a corrupção dos costumes.

E a todos estes graves males acudia o Rosário: recordava os mistérios da Fé cristã, propunha às almas os exemplos das vidas de Jesus e de Nossa Senhora, e ensinava a reconhecer em Maria a Mãe de Deus e dos homens, a honrá-la juntamente com Jesus e a recorrer à sua valiosa intercessão junto de Deus.


3. O Rosário, oração predilecta de Maria

Tantas vezes e com tal empenho Nossa Senhora nos recomendou a oração do Rosário que se torna evidente ser esta a sua oração preferida. Quem desconhece, hoje, algumas das suas aparições dos últimos tempos em que ela pediu e recomendou, instantemente, a difusão e prática quotidiana do Rosário?! Para não nos alongarmos demasiado, recordemos apenas dois casos: Lourdes e Fátima.

Em Lourdes (no Sul de França), Nossa Senhora aparece, em 1858, dezoito vezes com o Rosário pendente das suas benditas mãos, ensina a pequenita vidente, Bernadette Soubirous, a rezá-lo e pede que se construa ali um templo em honra da Rainha do Rosário. E sabemos como a piedade cristã correspondeu a este pedido da Maria Santíssima, levantando no local das aparições uma monumental basílica e nela foram construídos quinze altares em honra dos quinze mistérios do Rosário. Como maternal reconhecimento, Nossa Senhora estabeleceu em Lourdes o seu trono de misericórdia.

Mais próximo de nós, concretamente há 90 anos, ocorreram as aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria, Fátima, a três pastorinhos de um lugarejo denominado Aljustrel. A Senhora, nas seis aparições, apresenta-se sempre com o terço pendente das mãos, como em Lourdes. E o que nos pede ela, através das três crianças? «Rezai, rezai o Terço todos os dias! »

E, nas seis aparições, faz sempre referência ao Rosário: logo na primeira (13 de Maio), quando a Lúcia lhe pergunta se os três iam para o Céu, Nossa Senhora responde afirmativamente, mas acrescenta: «O Francisco também vai para o Céu, mas tem que rezar muitos Terços». Não deixa de ser sintomático que a Senhora não tenha dito que o Francisco, para ir para o Céu, teria de fazer muitos e grandes sacrifícios – como, de facto, veio a fazer –, mas sim que teria de rezar muitos Terços.

Em todas as aparições não se cansou de repetir: «Rezem o Terço todos os dias». E a 13 de Julho: «Quero que continuem a rezar o Terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do mundo…, porque só Ela lhes poderá valer».

Após as primeiras aparições, o povo começou a deixar dinheiro na Cova da Iria, e na quarta aparição (19 de Agosto), nos Valinhos, Lúcia pergunta a Nossa Senhora: «Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?» E recebe esta resposta: «… É para a festa de Nossa Senhora do Rosário…».

E, na última aparição, a 13 de Outubro de 1917, Lúcia vê, por fim, satisfeito o pedido reiterado já antes, várias vezes, por ela: «Que é que Vossemecê me quer?» A Virgem responde: «Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que SOU A SENHORA DO ROSÁRIO, que continuem sempre a rezar o Terço todos os dias…». Aqui temos “o bilhete de identidade” da Virgem de Fátima: Eu sou a Senhora do Rosário!


4. A força do Rosário

O nome de Fátima comove, hoje, os corações católicos de todo mundo. A basílica do Rosário, elevada no cimo duma pequena colina, com a sua alta torre branca, é farol de esperança na actual tormentosa hora da humanidade. Na aparição de 13 de Julho de 1917, a Mãe do Céu confiou aos Pastorinhos um segredo, cuja terceira parte só veio a ser revelada ao mundo na Cova da Iria, no dia 13 de Maio do Ano Jubilar 2000, após a solene celebração da beatificação dos dois videntes Francisco e Jacinta Marto, presidida pelo Papa João Paulo II. Então ficámos a saber que Nossa Senhora protegeria Portugal e – porque não dizê-lo? – a civilização da Europa e do mundo inteiro.

Com efeito, em 13 de Julho de 1917, ela anunciou, através dos Pastorinhos, o fim da I Guerra Mundial (1914-1918), advertindo, no entanto, de que, se não deixassem de ofender a Deus, no pontificado de Pio XI, o mundo seria punido dos seus crimes com outra guerra pior, a fome, a perseguição à Igreja e ao Santo Padre. E assim veio a suceder com a II Guerra Mundial (1939-1945). Maria, porém, deixou-nos uma consoladora palavra de esperança: «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé…».

E todos sabemos, hoje, como Nossa Senhora de Fátima protegeu o para sempre inesquecível Papa João Paulo II, naquele fatídico dia 13 de Maio de 1981, na Praça de São Pedro, quando viu bem perto de si a fronteira da morte. Ele próprio afirmou, em 13 de Maio de 1994: «Foi uma mão materna que guiou a trajectória da bala e o Papa agonizante deteve-se no limiar da morte».

Terminemos com estas palavras do mesmo João Paulo II, pronunciadas em Roma, a 17 de Maio de 2000, quatro dias depois da sua última vinda a Fátima: «A minha peregrinação a Fátima foi uma acção de graças a Maria por tudo aquilo que quis comunicar à Igreja através destas crianças [os Pastorinhos] e pela protecção a mim concedida durante o pontificado. Caríssimos irmãos e irmãs, acolhamos a luz que vem de Fátima: deixemo-nos guiar por Maria» [1].

Notas

[1] Serviram de suporte a este trabalho, entre outros, os livros: “Livro do Rosário”, de Fr. Marceliano Llamera, O.P., e “Pastorinhos de Fátima”, de M. Fernando Silva.


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