59.ª Peregrinação Nacional do Rosário - Homilia XXVI Domingo comum

Uma homilia de D. Augusto César, Bispo emérito de Portalegre e Castelo Branco


A opulência e a indigência

Cada peregrinação a Fátima é uma espécie de ‘profecia’ murmurada ao longo do caminho e rezada em voz alta, na presença de Nossa Senhora. Com efeito, à medida que os peregrinos se deslocam a pé ou de carro, vão deixando pelos ambientes a lembrança duma Senhora mais brilhante do que o Sol e a dos três Pastorinhos voltados para a ‘carrasqueira’. Depois, chegando ao Recinto do Santuário, dirigem-se à Capelinha com afecto filial e rezam ou cantam, com sabor a fé e gratidão.

É certo que nem todos fazem assim… e, por isso, a sua profecia torna-se menos edificante: mormente, quando descuidam o silêncio tão recomendado no Santuário… quando vestem de maneira pouco decorosa e mais à conta da moda… e quando esquecem a Eucaristia como centro da Mensagem de Fátima.

Claro que ouvir isto, não agrada a todos os ouvidos. Mas o Profeta Amós foi mais incisivo, quando chamou a atenção para os pobres, tantas vezes desdenhados socialmente, e para os ricos tantas vezes descuidados ou acomodados nas suas poltronas. E acrescentou: por isso, diz o Senhor, cairá sobre esta terra a calamidade do exílio e muitos sofrerão o extermínio!

Ora, Nossa Senhora também falou aos Pastorinhos de modo semelhante: rezai o Terço todos os dias e intercedei pela conversão dos pecadores. Pois, tanto a oração como a mudança de comportamento, assegurarão a paz e afastarão a guerra. E acrescentou: em Portugal manter-se-á a fé… mas disse também: “estais dispostos a aceitar os sacrifícios que o Senhor vos mandar”? – e mostrou-lhes a imagem do inferno! Antes, porém, havia-os atraído com afecto maternal e conduzido à presença de ‘Jesus escondido’, como eles Lhe chamavam.


A força do testemunho

Realmente, a nossa vida de fé tem sabor a profecia… mas precisa de ser testemunhada com a vida! Assim lembrou S. Paulo ao seu discípulo Timóteo (e fê-lo com autoridade apostólica): “ordeno-te, na presença de Deus: guarda o Seu mandamento sem mancha e acima de toda a censura”! E de que mandamento se tratava? Da justiça e da piedade, da fé e da caridade, da perseverança e da mansidão… praticadas com perseverança e à conta da fidelidade.

Além disso, o combate da fé aproxima-nos da vida eterna… e nós sentimo-nos chamados até aí, levando a nossa cruz. E de que é feita essa cruz? Do quotidiano da nossa vida: trabalho, saúde, doença, apostolado, doação em família, oração e muita confiança. Pois, se nos deixamos tolher pelos desafios do tempo ou pela confusão social, facilmente cedemos espaço à crítica e julgamos que o ‘mais’ está sempre do nosso lado. Quando, para fazermos um discernimento à conta da fé, é preciso cultivar o amor, a esperança e a misericórdia… ainda que o ambiente desdenhe do nosso comportamento. Na realidade, assim cantávamos, há pouco, com o Salmo: O Senhor protege os peregrinos… ama os justos… e faz justiça aos oprimidos! E Nossa Senhora também cantava: “A minha alma glorifica o Senhor… pois, Ele pôs os olhos na humildade da Sua serva. Doravante, chamar-me-ão bem-aventurada todas as gerações”! Confiemos, também nós, e ajudemo-nos uns aos outros a confiar.


A indiferença rejeita a caridade

Entretanto, oiçamos o que Jesus disse aos fariseus, para os ajudar a reflectir. Havia um homem, cheio de fortuna, que se rodeava dos amigos e com eles se banqueteava, amiudadas vezes. Não fazia mal a ninguém nem se ouvia criticar a sua ganância ou o seu egoísmo. Simplesmente, ignorava os pobres ou os que nada tinham, passando de lado como se não existissem. E quando algum lhe batia à porta… de tão entretido que andava com os seus convidados, nem ele nem os empregados lhe davam atenção.

Acontece que um pobre Lázaro – era mais a condição do que o nome - achou de se aproximar, para ver se alguns restos lhe cabiam em sorte. Mas apenas os cães se aproximaram dele e lhe deram algum conforto, lambendo-lhe as feridas.

Depois, os dias foram passando… e a morte chegou para ambos. Cada um, apresentou-se na eternidade com o que tinha granjeado no mundo: a partir da riqueza opulenta ou da pobreza humilde. E o que acontece, a seguir? O pobre-Lázaro é acolhido em ambiente de solidariedade, no seio de Abraão; e o rico-opulento cai na solidão, com o sofrimento que lhe é próprio. E começa, então, o diálogo que antes havia estado ausente: “Pai Abraão, manda Lázaro com a ponta do dedo molhado, para me refrescar a língua” (na realidade, um gesto de caridade, por pequeno que seja, vale uma fortuna)! Além disso, o que se granjeou nesta vida aproxima-nos, na outra, da felicidade ou do sofrimento. E a resposta de Abrão assim deixou compreender: “lembra-te que recebeste todos os bens, em vida, e Lázaro apenas os males”! Mas o rico não desistiu: “manda pelo menos Lázaro à minha casa paterna, para prevenir deste mal os meus irmãos”? E Abrão acrescentou: não é possível ultrapassar o abismo que nos separa… e além disso, eles têm Moisés e os Profetasque os oiçam!

Realmente, para conhecermos a vontade de Deus e saborearmos a Sua misericórdia, não é preciso recorrer a milagres ou importunar os defuntos, mesmo à conta da ressurreição. Basta dialogar a fé e a caridade, de molde a que os ricos abram o coração com generosidade e os pobres despertem o gosto da fraternidade. E olhando para o mundo de hoje, vemo-lo distraído dos valores, colocando a vida, muitas vezes, abaixo da presunção e da moda. Por isso, o Papa Francisco aproxima-se dos pobres e doentes, para com eles saborear de mais perto o amor de Deus; e fala da vida como dom de Deus, para que a família cumpra, com fidelidade, a vocação e missão que d’Ele recebeu. O matrimónio, com efeito, não pode ser visto como mera forma de gratificação afectiva, que se modifica à conta da sensibilidade de cada um, mas como contribuição indispensável a favor duma sociedade responsável e virtuosamente comprometida.

Queridos peregrinos de Fátima: deixai-me olhar para vós com fé e gratidão. Com fé, porque vos aproximais de Nossa Senhora cheios de confiança e pedis para vós e para o mundo, a paz e a conversão; e com gratidão, porque vos esforçais por tornar o mundo mais fraterno e solidário, tanto em família como em sociedade. E é com esse propósito que rezais o Terço, como Nossa Senhora pediu: cada dia e em família. Mas, hoje, sentimo-nos motivados, de modo particular, pela Peregrinação Nacional do Rosário e pela presença de toda a Família Dominicana que celebra 800 anos de aprovação da sua Ordem. Louvemos o Senhor em assembleia e em ambiente sacramental; e, com gratidão, lembremos o peregrino itinerante e fundador da Ordem – S. Domingos de Gusmão. Aliás, a devoção do Rosário anda-lhe profundamente ligada, a ele e a toda a Família, em termos de prática e de apostolado.

E, assim, esta Peregrinação jubilar aproxima-nos de Nossa Senhora do Rosário, com o entusiasmo dos primeiros peregrinos, que rodeavam os Pastorinhos; e, agora, com o nosso entusiasmo de os ver canonizados. A seguir, oiçamo-los e, com eles, digamos muitas vezes: “Ó Senhor, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores, e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós!

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