O laicado dominicano e a pregação

Jesus sobe a Jerusalém

Jesus deixa a Galileia para passar à Judeia, subindo com a sua comunidade a Jerusalém (Mt 19-23). Estamos na última fase da vida de Jesus, o ministério em Jerusalém onde vai dar a sua vida por nós, oferecer-nos a eucaristia, comunhão do seu corpo e sangue e vencer a morte, ressuscitando ao terceiro dia.

Do lugar de encontro, que é a Galileia, passa ao caminho que O vai conduzir à morte. Embora se mencionem as multidões, toda a ação se desenvolve entre Jesus e os seus discípulos, por um lado, e os seus adversários, por outro. Em cada episódio vai ser apresentada a necessidade de tomar opção a favor ou contra Jesus.

Jerusalém recebe o “filho de David”

Jesus, o “filho de David”, entra em Jerusalém. Como é que O vão receber? Nos capítulos 21 e 22 de S. Mateus encontramos três séries de textos que nos ajudam a dar a resposta:

a) Gestos de Jesus (entrada em Jerusalém, purificação do Templo, maldição da figueira, nega-se a manifestar a Sua autoridade);

b) Parábolas (dos dois filhos, os vinhateiros homicidas, os convidados para a boda);

c) Controvérsias (herodianos, saduceus, letrados, réplicas de Jesus). A tensão entre Jesus e as autoridades judaicas vai aumentando.

A parábola dos dois filhos (Mt 21, 28-32), própria de Mateus, recorda-nos a do Filho Pródigo (Lc 15, 11-32). Os que desobedecem ao pai num primeiro momento voltam depois ao trabalho e ocupam os primeiros lugares no Reino. Os “oficialmente bons” têm o coração endurecido e não podem acolher o perdão.

O laicado dominicano e a pregação

A primeira leitura do profeta Ezequiel situa-nos num tema muito importante para o nosso agir como cristãos no mundo em que vivemos: o da responsabilidade individual de cada um perante as suas ações: «quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal e vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida» (Ez 18,26-27).
É esta responsabilidade individual e coletiva (paróquias, movimentos apostólicos, rosaristas e outros) que temos de acentuar na pregação do Evangelho, de acordo com o tema da nossa peregrinação: «O laicado dominicano e a pregação». Todos somos convidados, como S. Paulo, a anunciar o Evangelho: «Como hão de invocar Aquele em Quem não acreditaram? E como hão de acreditar n’Aquele de Quem não ouviram falar? E como hão de ouvir falar, sem alguém que o anuncie? E como hão de anunciar se não foram enviados? Por isso está escrito: Bem-aventurados são os pés dos que anunciam as boas novas. (…) A fé surge da pregação, e a pregação surge pela palavra de Cristo (Rom 10, 14-15.17»).

Num texto do séc. XIII que faz parte do património da ordem dominicana lê-se que «as palavras sagradas da pregação não vêm simplesmente do homem, como as palavras de outras ciências, elas vêm da inspiração do próprio Deus. E por isso o Senhor diz aos pregadores: «Quem vos ouve, a mim ouve» (Lc 10, 16). Para fazer com que as pessoas ouvissem aquilo que diziam por esta razão, os profetas costumavam concluir as suas palavras com «Assim diz o Senhor», como se dissessem: «Devem ouvir, porque estas palavras não são as minhas, mas as do Senhor»[fn]Humberto de Romans, O.P. A pregação, pg. 114.[/fn].

O Papa Francisco ao refletir na exigência de cada cristão ser evangelizador e portador de boas notícias, afirma na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho: «Em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário (cf. Mt 28,19). Cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização; se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe deem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas sempre que somos «discípulos missionários». Se não estivermos convencidos disto, olhemos para os primeiros discípulos, que logo depois de terem conhecido o olhar de Jesus, saíram proclamando cheios de alegria: «Encontrámos o Messias» (Jo 1,41)» (EG 210).

A evangelização nunca é um ato individual que se faz em nome próprio, uma vez que o seu conteúdo não pertence ao homem como indivíduo e sendo ele um mediador, não o pode fazer segundo os seus critérios ou perspetivas pessoais. Cada evangelizador é um mediador e, ao evangelizar, fá-lo em nome e na fidelidade a quem o enviou. Evangelizar é sempre uma ação eclesial e também a Igreja é mediadora porque atua em nome do Senhor Jesus, que a enviou (Cf. EN 60).
Na Igreja todos os cristãos são membros ativos no anúncio do Evangelho e ninguém pode passar a outro a sua tarefa: «Os trabalhadores são chamados para a vinha em horas diferentes, como a querer significar que à santidade de vida um é chamado durante a infância, um outro na juventude, um outro quando adulto e um outro na idade mais avançada» (Chf L 45 citando S. Gregório Magno).
Não há evangelização sem ação do Espírito Santo, pois não há Igreja de Jesus sem a presença e ação do Espírito de Deus: foi Ele que impulsionou Jesus ao anúncio da Boa Nova; foi Ele que comunicado por Jesus aos apóstolos os levou a todo o mundo a anunciar a Cristo morto, ressuscitado e exaltado; é Ele que inspira as palavras que hão-se ser ditas e desce sobre o coração dos que as ouvem e provoca neles a adesão do coração; é o Espírito que mantém na fidelidade os evangelizadores e os evangelizados; é Ele que dá os diversos dons e carismas e lhes garante a unidade; é ainda o Espírito que dá eficácia à ação evangelizadora, pois é Ele que suscita a nova criação, a humanidade nova e que penetra no coração do mundo... (Cf. EN 75).

Peçamos a Maria, a Mãe do Evangelho vivo, que nos ensine a viver do Espírito, anunciando que a Palavra de Deus exige sermos testemunhas de Cristo ressuscitado.

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