A Devoção do Rosário ao Longo da História

Foi a partir da segunda metade do século XVI que se verificou a grande expansão da devoção do Rosário e das suas Confrarias, devido sobretudo à retumbante vitória da armada cristã, a “Liga Santa”, sobre os turcos, no golfo de Lepanto.

Sabido é, porém, que ganhar uma batalha não equivale a ganhar uma guerra. Os príncipes cristãos, em vez de se aliarem contra o poderoso império turco, guerrearam-se, com frequência, entre si, não se dando conta de que o inimigo comum continuava a espiar cuidadosamente o oriente europeu, disposto a engolir todo o continente, conquista após conquista. De tal modo que, em 1683, um enorme exército turco, formado por uns 250 000 homens, cercou Viena, a capital do Sacro Império, defendida apenas por 25 000 soldados inexperientes. Ante tal ameaça, em todo o Império se implorava a intercessão de Nossa Senhora, recitando o Rosário todos os dias, oração a que presidia o próprio Imperador.

Por seu lado, o Papa Inocêncio XI convocou umas jornadas de oração e penitência a fim de aplacar a ira de Deus, e ele mesmo presidiu, em Roma, a uma procissão de súplicas desde a igreja dominicana da Minerva, a sede mais importante da Confraria do Rosário, até à igreja dos Austríacos. Quando as hordas turcas se consideravam prontas para o assalto e se julgavam senhoras da cidade, em auxílio desta chegou João III Sobienski com 25 000 polacos, os quais, juntando-se a Jorge da Baviera, e após duríssimo combate, conseguiram romper o cerco e pôr em debandada os sitiadores, no dia 12 de Setembro. Em memória e gratidão por este acontecimento de capital importância para a liberdade da Europa e continuidade da cultura e religião cristãs, Inocêncio XI instituiu a festa do Doce Nome de Maria, a ser celebrada nesse dia.

Todavia, os turcos nunca abandonaram a ideia de se apoderarem da Europa. Em 1716, apresentaram outro grande exército na região de Temesvar (Hungria). O exército do Imperador Carlos VI, sob o comando do valoroso príncipe Eugénio, enfrentou-os e derrotou-os no dia 5 de Agosto, festa de Nossa Senhora das Neves. Nesta insigne vitória participaram também os confrades do Rosário de Roma, os quais, com a participação de numerosíssimos fiéis, realizaram uma longa procissão, implorando, com a recitação do Rosário, o auxílio da Mãe de Deus.

Nesse mesmo ano, os turcos pensaram invadir a ilha de Corfú, último baluarte cristão na Itália. O bloqueio foi desfeito pela armada de Schulenburg na oitava da Assunção de Nossa Senhora. O Papa Clemente XI atribuiu essa gesta ao auxílio das confrarias do Rosário, às quais havia exortado a implorarem a intercessão da Santíssima Virgem, através da recitação do Rosário. E, como recordação deste feliz acontecimento, estendeu a toda a Igreja Católica a celebração da festa do Rosário, no primeiro domingo de Outubro.

Leão XIII, na sua encíclica Supremi Apostolatus, de 1 de Setembro de 1883, recorda estas graças de Nossa Senhora do Rosário, com as seguintes palavras: «Igualmente no século passado, foram alcançadas importantes vitórias sobre os turcos em Temesvar (Hungria) e Corfu, que se obtiveram em dias consagrados a Nossa Senhora e concluídas as preces públicas do Rosário, factos que levaram o nosso predecessor Clemente XI a proclamar, como prova de agradecimento, um decreto estendendo a toda a Igreja a festa de Nossa Senhora do Rosário».

Muitos outros felizes acontecimentos da causa católica se atribuem a Nossa Senhora do Rosário, quer a nível geral, quer a nível particular. Para os relatar todos, seria necessária uma obra de muitos volumes; aqui não dispomos de espaço nem sequer para os mencionar. Se narrámos os precedentes de carácter geral, foi para explicar as entusiásticas actuações de todas as altas individualidades da Igreja Católica enaltecendo Nossa Senhora e praticando a devoção do Rosário.

Tradução e adaptação de Fr. Agostinho de Lagos, op

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